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A Liga da terra (The Land League)

Para entender a questão da Liga da terra nos anos 80 do século XIX e como Parnell e o primeiro ministro inglês Gladstone entraram nessa dança do Home Rule com isso, nós temos de entender como era a questão agrária na irlanda nesse período.

Bem, Gladstone já havia promulgado uma lei agrária para tentar o que a opinião pública chamava de “A questão irlandesa”. Claro que a grande questão irlandesa se pararmos para pensar era por que diabos os inlgeses não deixavam a Irlanda de vez, mas para Gladstone a tal da questão irlandesa consistia em acalmar os ânimos dos paddies por lá.

Neste intento, ele destituiu a igreja protestante da Irlanda de seu quadro político de oficialidade (afinal, mais de 80% da rapeize lá era católica, né?) e resolveu introduzir uma série de leis agrárias, o que na sua plataforma política garantia fixação da estabilidade do trabalhador, aluguéis justos e venda livre (o que ficou conhecido como os três “fs”: fixity of tenure, fair rents and free sale).  Gladstone tentava assim segurar a Irlanda como podia ao império britânico. Inclusive, ele dizia abertamente que eles estavam para “perder a Irlanda como consequência de anos de crueldade, estupidez e desgoverno então eram melhor perdê-la como amiga do que como inimiga”.

No entanto, as leis de Gladstone eram literalmente para inglês ver e acabaram por criar uma série de furos e problemas mesmo assim, sobretudo por conta do abuso das autoridades britânicas sobre as necessidades e demandas dos trabalhadores rurais irlandeses da época. Ou seja, a questão irlandesa ainda não estava resolvida e Parnell sabendo disso resolveu capitalizá-la para seu lado da autonomia.

Parnell

Parnell indica o caminho na O’Connell Street. – Foto: Erick Carvalho. 2012

Neste intento, Parnell junta suas forças com uma recém formada Liga da terra (Land League) que existia na época. Ou será que foi o contrário? Afinal, a Liga da terra havia sido fundada lá pelo inverno de 1878-79 por um antigo feniano chamado Michael Davitt que assim que foi liberto da prisão na Inglaterra começou a fazer uma série de levantes contra abusos sobre os aluguéis de terra (como no condado de Mayo) e assim angariando alguns partidários.

Davitt e Parnell (que não eram apenas as duas escovas representativas para Stephen Dedalus no livro do Retrado do artista quando jovem de James Joyce, mas também duas figuras políticas notáveis) se juntaram no intento de alavancar as questões agrárias com participação política por meio da Liga da terra. Davitt e Parnell foram até os EUA, conseguiram grande apoio ($$$) e com isso começaram a organizar o movimento agrário de maneira mais incisiva.

E  de maneira não apenas incisiva, mas pacífica  (para o espanto dos ingleses que obviamente queriam ver sangue (irlandês) no processo), o movimento agiu de forma exemplar e com grandes exemplos de desobediência civil, os famosos boicotes que ganharam seu nome justamente pelo grande “ataque” ao capitão Charles Boycott, um agente britânico de terras em nome de um ausente lorde Erne que se se recusava a baixar os valores do seu aluguel. Parnell encorajou a comunidade a ostracizá-lo e assim eles fizeram.

O tal do Boycott não mais conseguiu ninguém para trabalhar para ele, seja para servi-lo ou vendê-lo o que for, mesmo que fosse uma pint no Pub local (o que certamente é o fim da vida de qualquer um). Por esta razão, os britânicos sanaram a questão de maneira bem sutil: enviando 1000 soldados e cinquenta orangistas para trabalhar na colheita de suas terras. Obviamente, o custo dessa operação era bem maior que o custo da colheita, o que não deveria constituir um bom exemplo de investimento para a escola liberal britânica.  Mesmo depois disso ele continuou sendo ostracizado por todos e resolveu dar o pé de lá.

provisorio.jpegNo entanto, a prática pacífica não durou muito e as coisas meio que saíram do controle quando algumas mortes de donos de terra começaram  pipocar aqui e ali. Como os donos de terra eram apoiados pela força militar britânica as coisas acabaram de maneira bem mais agressiva que o esperado.

Neste sentido, o governo britânico tomou algumas medidas para controlar a tal desordem, como leis coercitivas mais incisivas e uma segunda lei agrária. Isso meio que dividiu o movimento. Neste ínterim, Parnell começou a testar também algumas falhas dessa segunda legislação agrária entre seus partidários, o que começou a gerar mais tumulto.

Obviamente isso não agradou Gladstone que o mandou prender em Kilmainham Gaol. A verdade é que Parnell gozava de melhor tratamento dentro da prisão do que eu gozo em minha própria residência hoje e dentro desse conforto prisional ele negociou com Gladstone a estabilidade irlandesa enquanto fora da prisão o bicho estava pegando com a liga da terra promovendo uma série de greves e manifestos contra o pagamento dos aluguéis agrários, o que forçou sua dissolução e banimento por parte do governo.

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Em Kilmainham Gaol eles assinaram o tratado de Kilmainham e com isso tudo estaria controlado…só que não. Menos de uma semana depois de assinar o tratado, o chefe e alguns secretários irlandeses que o assinaram são assassinados no Phoenix Park em Dublin e com isso Parnell se afasta da Liga da terra dominada pelos fenianos e estabelece um novo movimento: a Liga nacional irlandesa (irish national league).

A liga mostrava não apenas que os irlandeses do século XIX se amarravam em criar ligas, mas também outras coisas. Primeiro que o desejo agora não era mais apenas reforma agrária (mesmo que essa continuasse sendo um objetivo secundário do grupo), mas conseguir a autonomia da Irlanda. E há quem diga que é neste momento que o desejo por independência vai começar a se inflamar….

 

The Home Rule League (1870-1874)

A demanda por autonomia irlandesa é certamente a grande luta do século XIX. Essa autonomia, chamada de Home Rule é para todos os sentidos a tentativa de remoção do tal ato de união de 1801 e a mudança para um parlamento centrado em Dublin. Até então as aspirações por independência eram insipientes ou simplesmente não existentes, então a galera lá queria ter um pouco de liberdade mesmo fazendo parte do tal do reino unido.

Depois de tanto lutar contra ingleses por meio de levantes fracassados, como o levante dos jovens irlandeses (young irelanders) de 1848 ou mesmo o levante feniano de 1867 (podemos chamar aquilo de levante? Não sei. Rs), a luta irlandesa por autonomia ganhou outras táticas. A tática mais impressionante até então e, certamente, a mais efetiva foi a adotada  pelo movimento de autonomia (Home rule movement) criado na época.

provisorio2.jpegInfluenciados pelo advogado protestante Isaac Butt (não é um nome muito legal se você entende inglês, né?) , os irlandeses fundaram a liga pela autonomia (Home rule league) em 1870 que tinha, como o nome nos diz, um objetivo bem claro. Nas eleições de 1874, a liga conseguiu cerca de 59 assentos no parlamento britânico e começaram então a efetuar sua tática de obstrução que consistia em ir até ao parlamento e ler qualquer coisa que eles tivessem em mãos como trechos de livros, panfletos etc para assim bloquear so debates mais importantes do dia e chamar atenção para sua própria causa.

No entanto, mesmo que essa estratégia ajudasse a colocar a leitura do pessoal em dia, mesmo com essa prática as coisas não deram muito certo, seja por conta da influência do lider conservador (tory) Benjamin Disraeli que estava em seu ápice político (ou seja mandando os irlandeses irem às favas!) ou porque como bem sabemos, o próprio Butt não comparecia aos trabalhos por questões pessoais. Como a maior parte dos outros eleitos pela liga também não sabiam muito o que fazer, as coisas não ganharam muita força.

No entanto, a situação mudou quando Butt morreu e como lider da tal liga da autonomia surge nada mais, nada menos que Charles Stewart Parnell, uma das figuras mais polêmicas e ativas da política irlandesa na segunda metade do século XIX. Parnel  era também um político irlandês de matriz protestante (é, mais um!) e neste sentido ele sabia como lidar com os dois lados da disputa. E com sua grande capacidade de organização Parnell botou ordem no coreto e adotou para além da obstrução uma outra tática mais efetiva para conquistar a atenção não apenas dos britânicos, mas também dos próprios irlandeses: A questão agrária da irlanda, fonte de grande parte dos problemas da ilha desde a época da grande fome (e até antes dela se pensarmos bem).

“Let no man write my epitaph(…)

When my country takes her place

among the nations of the earth,

then, and not till then,

let my epitaph be written.”

–  Robert Emmet.

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DSC_0114Antes de entendermos como é que uma rebelião como essa não deu certo, nós temos que saber quem a estava liderando, não é mesmo? E bem, em 1803 a tentativa de rebelião era liderada pelo famoso patriota e atual estátua em St Stephen’s green [local onde ele inclusive nasceu] Robert Emmet.

Robert Emmet era um bem nascido protestante do tipo que fazia sucesso na política irlandesa. Afinal, incontáveis políticos irlandeses no século XIX eram da mesma estirpe de Emmet. Família protestante, situação financeira razoável, possibilidade de enfrentar a política britânica e ser – de alguma forma – ouvido, o que era bastante coisa na Irlanda daqueles dias.

Emmet era filho de um respeitado médico e teve boa educação. Desde 1793 quando entrou para a universidade em Dublin, ele passou a frequentar grupos de estudos de História e , como todos sabem, não tem como estudarmos História e ficarmos indiferentes com as injustiças do mundo, não é? Principalmente estando tão perto do império britânico…

Emmet então se engaja na vida política e foi um dos inúmeros participantes do levante [também fracassado] de 1798. Após o fracasso desse levante ele foge para Paris e passa um tempo considerável tentando apoio francês, mas vale lembrar que nessa época a França, ou melhor dizendo, Napoleão tinha suas prioridades imperialistas e não deu muito ouvido ao pedido de Emmet. Além disso, tudo o que  o nosso amigo Robert Emmet queria era um pouco de apoio em sua causa e, claro, alguns francos necessários para comprar coisas anti-britânicas como armas de fogo, espadas, facas, coisas pontudas que furam e, quem sabe, coisas que realmente pudessem colocar o terror nos corações britânicos como, sei lá, um bom dentista ou um pouco de humildade…

Mas a verdade é que Emmet volta para a Irlanda com as mãos abanando e decide, ele mesmo, fabricar armas para o seu levante que teve de ser adiantado por motivos logísticos. [ele explodiu seu próprio galpão e isso chamaria um pouco de atenção das autoridades. Dizem.]

Mas enfim. No sábado, dia 23 de julho de 1803 ele começa sua rebelião [emitindo uma proclamação em nome do “Governo Provisório”. A galera de 1916 se inspirou nisso depois. anotem aí.]  e com ela vários rebeldes de Kildare e outras paragens chegam para lutar. O problema é que nosso amigo Emmet não tinha armas suficientes para todo mundo e muitos acabaram voltando para suas casas e abandonando o movimento. No entanto, o que realmente conferiu o fracasso ao levante de Emmet foram dois fatores distintos.

O primeiro foi o fato de Robert ter decidido manter seus planos em absoluto sigilo para que eles não fossem descobertos pelos ingleses que nem em 1798. O problema é que ele deixou eles em tamanho sigilo, mas tamanho sigilo que a maioria dos potenciais revoltosos nem ficaram sabendo dos planos e resolveram ficar em suas casas ou no pub mais próximo.

O outro fatoprovisorio.jpegr foi que apesar dos gatos pingados que se juntaram a causa de Emmet serem realmente poucos, eles causaram um estrago sem tamanho. Nosso amigo não conseguiu mais controlar a galera que com sangue no olho mataram na base da brutalidade um guarda montado e o chefe de justiça da Irlanda à época, Lorde Kilwarden.

No desespero, Emmet cancela o evento, pois claramente seus amigos não estavam sabendo brincar de rebelião. Ele escapa e se esconde por um tempo e poderia ter fugido (mais uma vez) da Irlanda, mas por conta de seu mozão Sarah Curran, ele resolve se mudar para um lugar bem mais exposto ainda na Irlanda e, obviamente, acabou sendo preso alguns dias depois por conta disso. Eu ainda não sei por que a tal da Sarah Curran não poderia ter se escondido com ele em Rathfarnham ou fugido e encontrado com ele em algum outro lugar, mas enfim, não estou aqui para julgar essas pessoas que perdem a cabeça (no caso do Emmet de forma literal) por amor.

Afinal, ele foi logo julgado, enforcado e decapitado. Outros vinte e seis rebeldes também foram mortos com ele nessa leva. Foi nesse momento que Emmet proferiu sua fala mais célebre, onde diz que apenas “Quando meu país tomar o seu lugar entre as nações da terra, nesse momento e não antes desse momento, meu epitáfio deve ser escrito”.

As palavras são realmente bonitas, quase Hegelianas no tocante ao espírito do tempo e da razão histórica total [Só que Hegel só pensaria nisso três anos depois e oficialmente no papel muito tempo após, então não pense em associar uma coisa com a outra a menos, é claro, que façamos exercício analítico contemporâneo ao papel do “Zeitgeist”. Mesmo assim, acontecimentos como esse de 1803 podem ser analisados da mesma forma que Hegel pensava os demais acontecimentos dessa mesma época, como uma abstração lógica descontrolada. Tenho certeza que Emmet concordaria hehehe].

Bem, de qualquer forma demorou um pouco mais de cem anos para que a Irlanda ocupasse esse desejo de Emmet e mesmo assim não totalmente, seja por questões de divisão de condados ao norte ou por questões pós-coloniais mesmo. Mas isso fica para depois, pois ao menos por hoje, esta é a importância de ser Emmet.

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“I have met them at close of day
Coming with vivid faces
From counter or desk among grey
Eighteenth-century houses.
I have passed with a nod of the head
Or polite meaningless words,
Or have lingered awhile and said
Polite meaningless words,
And thought before I had done
Of a mocking tale or a gibe
To please a companion
Around the fire at the club,
Being certain that they and I
But lived where motley is worn:
All changed, changed utterly:
A terrible beauty is born.(…)”

Easter 1916; – W.B.Yeats.

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Vale lembrar que nenhuma “beleza terrível” como diria o poeta W.B.Yeats teria nascido se os ingleses não tivessem tamanho tato com a demanda por uma irlanda soberana. Muitos podem argumentar que os irlandeses “tem tanto em comum com os ingleses”, mas naquela época (e ouso dizer que até recentemente) esse tanto em comum era mais fruto de uma obrigação colonial sincera para se lamber botas do que uma natural festa entre camaradas do mesmo arquipélogo.

E falando em lamber coisas, temos certeza que naqueles dias após a rendição dos irlandeses revoltosos, o General inglês Maxwell também devia estar a lamber os beiços com a possibilidade sangrenta de comandar tantos pelotões de fuzilamento.  Mesmo que para ele isso fosse naqueles dias atirar em cachorros já mortos ( no caso de James Connoly isso era praticamente verdade).

E bem verdade também que ninguém poderia ter pensado dif

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Cuchullain no General Post Office em Dublin. – foto: Erick Carvalho, 2017

erente, mesmo se você não fosse um militar truculento sedento para colocar seu treinamento militar de guerra em prática. Afinal, no sábado do dia 29 de abril de 1916, apenas cinco dias após ter começado o levante, ele estava terminado. Patrick Pearse e seus companheiros foram forçados a abandonar o seu QG no posto central dos correiros (General Post Office; GPO) muito por conta se formos parar para pensar ele ser naquele momento apenas uma pilha de destroços de concreto, sem aquele museu bacana que tem lá hoje e muito menos aquela imponente estátua de Cuchulainn com vidro refratário que impossibilita qualquer foto turística decente.

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Mas voltando ao momento da rendição, vale lembrar que eles recuaram até o mercado de peixe da rua Moore e que resolveram então se render devido ao grande número de baixas civis irlandesas como dizem os textos oficiais (ou pelo cheiro de peixe podre como diriam as fontes oficiosas).  O que sabemos é que Pearse assinou o documento de rendição ao tal do General Maxwell e logo depois todas as forças rebeldes baixaram as armas.

Naquele dia, o ápice da punição britânica aos rebeldes foi marchar pela rua Sackeville (que é agora a O’connel Street) sofrendo humilhações das mais variadas e sem poder contar com o apoio popular irlandês que os acertavam com frutas podres de maneira mais certeira que os ingleses conseguiram acertar os irlandeses com suas armas durante o levante.

provisorio1Bem verdade que nas próximas duas semanas do mês de maio daquele mesmo ano, o General Maxwell prendeu mais de 3500 pessoas, promoveu centanas de “julgamentos” onde não existia júri ou mesmo direito de defesa e sentenciou noventa pessoas à morte, o que deveria aplacar sua sede de sangue subalterno. A verdade, é que de todas essas pessoas, quinze foram executadas, incluindo ai Patrick Pearse e todas as pessoas que assinaram a proclamação de independência da Irlanda e que estão imortalizadas em diversos poemas, monumentos irlandeses e souvenirs nacionalistas do centenário do levante.

Claro que todas essas execuções foram feitas com boa dose de inclemência que para os ingleses é considerado algo opcional apenas quando isso afeta sua própria imagem galante para o mundo. Um exemplo disso é o líder socialista James Connoly que impossibilitado físicamente de promover uma boa execução para – literalmente – inglês ver, foi amarrado em uma cadeira e carregado até o jardim (sem flores) da Prisão de Kilmainham e morto. Por outro lado, o futuro primeiro ministro e presidente Éamon De Valera escapou da morte porque era nascido na América e os ingleses queriam desesperadamente lamber as botas americanas para que eles entrassem com tudo na Grande Guerra e salvassem sua imagem galante de uma derrota inclemente contra as forças dos impérios centrais da Tríplice aliança.

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pátio de Kilmainham Gaol. Foto: erick Carvalho, 2017

Quando eles perceberam que as atitudes de Maxwell (para não falar suas execuções) estavam repercutindo de forma ruim para sua imagem, já era tarde. Diversas pessoas liam os jornais da época e começaram a ficar do lado dos executados [1]e de súbito não apenas os irlandeses, mas os europeus e, oh meu deus, os estados Unidos também(!), ficaram do lado daqueles que agora viraram mártires.

 Aparentemente eles tiveram de parar toda aquela matança, mas o efeito contrário já estava feito. Eles executaram os líderes de um levante e seus fantasmas voltaram imediatamente após os disparos do pelotão de fuzilamento para o assombrar os britânicos. Se isso não é de uma “terrível beleza” nada mais pode ser então.

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[1] Um dos casos mais emblemáticos e que mexeu com o imaginário da galera naquelaépoca foi o do poeta Joseph Mary Plunket, um dos líderes do levante e que noivo de sua outra metade Grace Gifford teve como último pedido se casar com ela. E assim o fizeram na pequena capela de prisão Kilmainham um pouco antes de sua execução. Eles estavam para se casar no domingo de Páscoa, mas bem, as coisas estavam meio tensas nesse dia, então eles adiaram até o momento final (literalmente).  Logo depois Joseph foi executado, sua esposa Grace Plunket nunca casou novamente segundo consta e sua cela ainda guarda seu nome e sua bela arte pintada na parede.  Impossível não ficar ao lado dos mártires com histórias como essa publicada nos jornais, não acha?

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Vamos analisar friamente. Para a América latina e para o mundo, politicamente falando, Trump não representa ameaça direta. Inclusive Clinton teria muito mais possibilidades de empreender guerras por fatores econômicos, mascarar o imperialismo com falas dóceis de wall street (seus apoiadores) etc.
No entanto, isso não quer dizer que Trump é bom. Ao contrário. Trump é o pior para os etadunidenses. Adeus obama care, adeus preocupação com minorias ou mesmo com questões multiculturais (mas não multiculturalistas infelizmente) que os EUA empreenderam nos últimos 8 anos de Obama. Teremos intolerância, teremos o ódio sendo destilado e potencialmente crimes contra minorias ocorrendo e sendo mascarado com vista grossa.
A vida na terra da Estátua da Liberdade será difícil. É o tal lance da onda conservadora. Internacionalmente Trump não representa uma ameaça direta, pois sua postura é de fechar o país. O problema é justamente a impossibilidade de fazer isso com um país de passado draconiamente imperialista e que sendo uma das grandes potências do mundo, senão a maior, tem o fluxo de capital e mesmo de desenvolvimento técnico global centrado em si.
Trump é um ideal grotesco e conservador e que foi alçado ao status de ícone nestes tempos atuais de anti-intelectualismo. É uma piada de mal gosto que tem códigos com bombas nucleares em suas mãos. O que ele pode fazer é imprevisível, mas em um momento inicial quem sofrerá mais é o próprio povo estadunidense e não o mundo. Depois disso, tudo pode acontecer. O que ele pode inspirar em grupos de ódio é gigantesco e vai alem de suas fronteiras que ele tenta tanto manter longe das minorias.

 

A ideia é que a onda conservadora oriunda de 2008 se espalhe. É a única maneira que eles encontram de controlar a crise. Líderes conservadores disseminam suas falas com boa aceitação seja nos EUA, França, Inglaterra ou Rússia. A onda conservadora tem uma fé cruzadista na sua própria “verdade”. E essa onda não mais consegue ser controlada pelo jogo de cartas marcadas das potências liberais, mesmo as de mercado. Não controla as falas de Marine Le Pen na França. Não controlou Trump, assim como não controlou o Brexit. Isso é apenas mais uma evidência de que a crise de 2008 se acentua e a saída encontrada em profusão global é a agressividade política conservadora travestida de liberdade. Para os países historicamente taxados como periféricos, golpes de natureza política já ocorreram em profusão e reafirmam essa truculência anti-intelectual como saída  viável (Paraguai, Honduras, Venezuela, Egito, Ucrânia, Brasil e etc). A tendência é que esse processo se intensifique para que os países centrais mantenham seu padrão de vida pós crise de 2008 da qual o capitalismo nunca se recuperou (pelo menos até a próxima crise do mesmo).
cruzados
Não é como em 1930 que os discursos totalitários se moviam lentamente como em um jogo de xadrez. Aqui o fluxo é constante e ocorre em ritmo frenético como em um grande jogo de pac-man, onde os fantasmas devoram rapidamente suas próprias possibilidades de integração justificados pelo cruzadismo truculento. A marca é o medo. A ação é o anti-intelectualismo. O Resultado é o que vivemos. Seja no Brasil, nos EUA e no mundo.

 

lorient1Certo dia ao interpelar uma mulher sobre como o interceltismo do festival intercéltico de Lorient serviria para a identidade desta parte noroeste da França conhecida como Bretagne ela não soube responder. Achei de início que era uma falha do sot
aque carregado em brasilidade do meu francês, mas não. Ao repetir a pergunta, ela já exaltada me disse que não havia nada o que falar, pois ser bretã era ser intrinsecamente celta e ponto final.

Pensei inicialmente ser uma divagação de uma bretã orgulhosa, depois de algumas cervejas. Mas não. Os bretões são nesse aspecto tão irredutíveis quanto os gauleses das histórias de Asterix que era, inclusive, um bom bretão segundo nossos amigos habitantes da Armórica atual. Eles propagam que ali a resistência celta é feroz mesmo que eles só o façam em alguns momentos. As bandeiras bretãs são um exemplo disso, bem como sua cerveja local, chamado de Lancelot e com um gosto que não desce tão redondo quanto a távola dos cavaleiros que a inspiraram.

Neste aspecto, nós temos de dizer, a Bretanha se vende como celta em cada detalhe do seu turismo e em cada fala de seus habitantes. Não que eles falem muito. Sua língua bretã é ostentada com orgulho, mas entre eles. Quase nunca abertamente com exceção talvez das placas citadinas. O orgulho bretão é tímido, repleto de onirismo e uma blessé identitária que nenhum estereótipo francês pode compreender.

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Parada do festival intercéltico de Lorient. Foto: Erick Carvalho, 2016.

E neste aspecto reside outra característica do projeto resistente da identidade celta bretã. A quem diga que sua diferenciação está na própria formação medieval da Bretanha que de forma nenhuma seria dominada pelos Francos. Eles seriam resistentes celtas que afunilados pelos Francos aos confins do fim do mundo armoricano olhariam para outras paragens. Bem verdade que isto é uma construção deveras poética da franja celta, mas é incrível como essa celtitude bretã é externa. O problema aqui não reside em nenhum problema de identidade, salvo suas questões regionais. A república lhe cai bem até certo ponto. Afinal, nem sempre a relação histórica entre as duas fora das mais animadas como as tentativas de supressão cultural bretã no período revolucionário jacobino mostram bem.

No entanto, isto parece ser uma querela de outro tempo e nem tão rememorada assim. O orgulho bretão fica meio que perdido nas brumas das florestas, tentando em vão achar uma utilização celta para seus alinhamentos de pedra e sua herança literária arturiana.

A Bretanha se constitui assim, céltica. Olha para o exterior periférico das demais nações celtas contemporâneas para assim achar seu valor interior perdido em meio as suas próprias brumas coletivas repletas da mais pura blessé bretã. Entre a resistência sonhadora e o sonho ancestral resistente seguem os bretões com sua celtitude.

 

Ao entrar pelas profundezas das catacumbas de Paris, o maior ossário do mundo, uma inscrição logo se apresenta: “Arrête, c’est ici l’empire de la mort”[1]. Tenebrosos avisos a parte, a verdade é que desde o fim do século XVIII, estes corredores profundos localizados a vinte metros abaixo das ruas parisienses forma uma verdadeira cidade dos mortos.

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As catacumbas deixam sua mensagem. Foto: Erick Carvalho, 2016

Esqueça as minas de Moria imortalizadas pelo senhor dos anéis na literatura e no cinema. Aqui, os salões de pedra e morte, repletos de crânios e fêmures é bem real. Afinal, mesmo em 1777 quando o ironicamente ‘vorpalizado’ Luis XVI criou a possibilidade de transferir as ossadas para o subterrâneo não se esperava o efeito final do trabalho terminado apenas no início do século XIX.

Uma cidade soturna e repleta de memória. Neste recanto subterrâneo de Paris, nós encontramos ossos dispostos nas mais variadas formas. Crânios formando um coração, tíbias que formam crucifixos. Entre as claustrofóbicas galerias, nós nos deparamos com a memória dos mortos que pouco a pouco provocam calafrios maiores dos que a temperatura local (normalmente em torno dos 14 C) podem suscitar normalmente. Nós nos deparamos com o que representa de fato, o ato de morrer.  O poeta Lamartine nos empresta suas palavras entre os inúmeros avisos das galerias: “Ils furent ce que nous sommes, poussière, jouet du vent; fragiles comme des hommes. Faibles comme le néante!” [2]

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Os Mortos do Faubourg Santoine. Foto: Erick Carvalho, 2016.

E nesses meandros poéticos, nós podemos imaginar bem que a célebre turba morta em meio ao Faubourg saint-Antoine e que começou a revolução francesa pode encontrar-se por lá de alguma forma, bem como toda a sorte de mortos das barricadas, das lutas pela liberdade, inspiradas pela fraternidade e, sobretudo, pela igualdade que só pode ser alcançada na morte que está em toda parte nas catacumbas de Paris.

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[1] “Pare, É aqui o império da morte”

[2] ” Eles eram quem somos, poeira, um golpe de vento; frágeis como os homens. Fracos como se nada fossem.”