Para o antropólogo Marcel Detienne, parceiro de Jean Pierre Vernant no centro de estudos Louis Gernet, os antigos gregos são ótimos enquanto fonte de estudo para compreendermos aspectos do nosso pensamento atual. A inovação proposta por Vernant alinhado a escola dos annales é interessante não apenas para se compreender melhor os antigos gregos e sua forma de pensar, mas para entendermos um pouco melhor nossas questões atuais sendo nós mesmos historiadores de nosso tempo.
Jean Pierre Vernant, enquanto renomado helenista que era, inovou a forma de se estudar não apenas os antigos gregos, mas a história como um todo ao aplicar abordagens interdisciplinares e diferenciadas ao estudo da Grécia antiga. O centro de estudos Louis Gernet produziu novas formas de se trabalhar temas clássicos ao envolver antropólogos, historiadores e especialistas de diversas áreas. Sobretudo, alterou a maneira como pensávamos o discurso e o modus vivendi grego.
Pensar o mundo grego. Nesta frase encontra-se , em nossa opinião, o ponto chave de onde desdobram-se as principais contribuições de Jean Pierre Vernant. Ao inserir aspectos piscológicos a formação do pensar grego, Vernant expande o leque de possibilidades analíticas a uma galáxia nunca antes sonhada. A Mentalidade é acima de tudo o ponto de articulação entre as temáticas próprias do mundo grego e a conceitualização estruturada de uma história problema.
Em As Origens do Pensamento Grego, encontramos um Vernant ainda esboçando as principais vertentes daquilo que o tornaria brilhante e notório na historiografia. Sua abordagem da Grécia arcaica e clássica segue momentos distintos. Em um primeiro momento sua preocupação é situar cronologicamente o mundo grego, buscando por meio das condições sociais entender a linearidade do pensamento que com o tempo vai se complexificando até chegar no desenvolvimento filosófico poliade clássico.
A formação do pensamento racional entre os gregos é a tônica deste livro e
Vernant o faz com maestria. O Capítulo IV em especial, intitulado o universo espiritual da Polis é muito bem pontuado e em nossa opinião é o capítulo que melhor define a proposta de Vernant ao inserir-nos em um universo políade onde a articulação existente entre o logos grego e a racionalidade ligada a atividade política é notória.
O pensar grego neste período de formação da polis é sempre contextualizado e a referência da associação continua deste pensamento com as concepções de longa duração se fazem presentes, principalmente quando notamos as referências existentes entre a mentalidade abordada e a dinâmica social grega em perspectiva cronológica.
Se pensarmos o capítulo IV deste livro dentro dessa lógica, encontramos elementos necessários para uma possível articulação entre o público, o privado e a dinâmica política do logos grego onde por esta época demandava uma prestação de contas que “já não se impõem pela força de um prestígio pessoal ou religioso” , mas que “devem mostrar sua retidão por processos de ordem dialética.
A palavra e o uso publico transformam profundamente as formas de pensar e de agir dentro do mundo grego. O universo espiritual da polis que Vernant evoca enquanto título deste capítulo são basicamente estes aspectos referentes ao prestígio da palavra, o desenvolvimento das práticas públicas e suas relações dentro da esfera pública entre aqueles que por meio da isonomia se reconhecerá enquanto igual e partilhando desta forma de pensar em comum.
Se pensarmos no quanto isso define e transforma as práticas humanas políticas, comerciais e religiosas dentro do mundo grego podemos compreender como certas racionalizações únicas da esfera grega puderam expandir-se de tal forma que puderam redefinir totalmente as práticas e discursos não apenas dentro do mundo antigo, mas se pensarmos antropologicamente com as nossas próprias formas de pensar enquanto individuo social, ou no caso dos gregos antigos poliade e Hómoioi.
A ação humana crescente e buscando sempre sanar suas necessidades formulou o pensamento racional grego. Vernant desde sempre pregou contra o chamado “milagre grego” e este trabalho nos coloca face a face com o que busca definir que esse mundo racional grego é antes de tudo feito por meio de uma construção lógica ligada intimamente com a evoluções das práticas humanas e da organização social.
.
Este livro se mostra de indispensável leitura para qualquer um que procure no pensamento racional as respostas para a as práticas que nascidas na Grécia se tornaram basilares para o mundo contemporâneo, como a própria formação da polis e a sua complexidade enquanto estrutural social. Jean Pierre Vernant não apenas inova nesta abordagem como também define a linha de trabalho que o tornaria não apenas um grande helenista, mas um historiador notável até os dias de hoje.