É costumeiro dizer que uma das mais célebres frases de Sigmund Freud é que “os irlandeses são imunes a psicanálise”. Ao assistir “Nó na Garganta” (The Bucther Boy no original) do diretor irlandês Neil Jordan, nós podemos até mesmo entender um pouco essa afirmação.
A história contada no filme – muitas vezes comparada como uma mistura de laranja mecânica com uma Amelie Poulain psicótica à irlandesa – nada mais é que um drama
sobre um garoto psicótico que estimulado por uma sociedade hostil e paranoica em uma Irlanda dos anos 60 catalisa e potencializa sua doença mental. O Resultado disso na trama é um filme forte e violento que trata de um dos principais temas existentes nas narrativas históricas e leituras sociológicas irlandesas modernas, o trauma.
No entanto, o trauma existente na narrativa social irlandesa e que inclusive se atrela a alguns aspectos de sua formação indentitária não são tratados como se espera. O filme é um soco no estômago, bem verdade, mas sua narrativa é convidativa. Neil Jordan usa de elementos fantásticos para contar a história do garoto Francis Brady. As cores fortes presentes na fotografia tornam a psicose e o mundo de fantasia inventado pela cabeça do menino em algo altamente atrativo para o espectador e, além disso, até mesmo suaviza as cenas brutais do filme que ganham um tom de humor negro quase sempre.
Até porque os surtos do rapaz são estimulados pela própria sociedade em que ele vive. Sua paranoia, seus arroubos de violência e seus traumas pessoais são absurdamente catalisados por suas relações sociais. O Trauma está presente, bem como o próprio abuso infantil que potencializa a fantasia psicótica criada por Francis Brady ao longo do filme que pode ser acompanhada por patologias sociais bem próximas a sociedade irlandesa interiorana da década de 60.
É interessante como nós podemos, por exemplo, ver inúmeros elementos da memória coletiva da comunidade retratada no filme como fatores preponderantes e que alimentam o mundo brutal e fantástico criado na cabeça do garoto. A paranoia comunista da guerra fria é transformada em perseguição individual. As mortes de personagens vitais são vistos como abandono até mesmo para a sociedade que o cerca.
Outro aspecto interessante é a obsessão irlandesa por elementos do passado. Neste filme, o garoto tenta se nortear por lembranças de um passado que distorcidas por sua mente doentia acabam por aguçar sua agressividade e sua fantasia mental psicótica. A revolta entre os momentos de surto e realidade de Brady são diretamente alimentados pela obsessiva característica social irlandesa por buscar elementos do passado, mesmo que um passado mítico, para embasar sua definição do eu, sua identidade.
Neste sentido, “Nó na garganta” é um filme muito interessante para pensarmos os aspectos ligados à memória social e, sobretudo, a articulação entre uma memória coletiva e uma memória individual e como isso pode dentro da subjetividade de uma mente perturbada causar não apenas a inadequação individual a sociedade, mas promover o caminho inverso. A catalisação de distúrbios psíquicos já existentes internamente por meio de patologias sociais apropriadas por uma memória coletiva.
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Y ahora imag nese usted que yo le dijera a un enfermo Yo, el profesor ordinario titular Sigmund Freud, le perdono sus pecados.