Hoje, meu alfaiate morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi a mensagem direta e seca ao bater a porta do sobrado antigo de uma rua aqui no Méier: “Seu Ivan morreu. Talvez o enterro seja amanhã, não sei. As roupas prontas talvez na quinta.” Isto não quer dizer nada. Roupas e morte não querem dizer nada. Ou talvez queiram dizer tudo. Não sei a ligação.
O sobrado do seu Ivan fica em uma rua perto de minha residência. O conheci quando tinha meus 15 anos, época em que decidi arrumar dinheiro como digitador de escritórios de advocacia. Com o dinheiro comprava livros e ajustava roupas largas demais que ganhava de parentes crédulos em meu crescimento ou simplesmente as que eu mesmo comprava em lojas, onde nunca se encontra seu número quando se é muito pequeno ou muito grande.
Seu Ivan era manso, de rosto sofrido e bem vincado. Seus ajustes se comportavam de maneira parecida. O colete sempre mais justo que o paletó e as calças eram largas com uma bainha quase morta. Morto agora está seu Ivan, meu alfaiate. Suas mãos residem frias em algum canto da cidade e nunca mais moldarão minhas roupas ou de qualquer outro senhor com o dobro de minha idade que costumava frequentar aquele sobrado de luz fraca e ressoando as ondas lentas e chiadas do radinho de pilha de seu Ivan, sempre mal sintonizado.
Mas agora ele está morto. O senhor ríspido que me deu a notícia não estava com um ar muito satisfeito ao me dizer. A culpa não é minha. Não soube o que dizer. Disse pêsames, mas não sei se era para mim, para ele ou para o morto. Retornei ainda meio entorpecido meu caminho de volta. Regressei e esqueci-me das roupas. No fim das contas, continuava tudo na mesma. E ele ainda morto.
Isso é um pesar.

