“I’ve been dreaming of a time when
The English are sick to death of Labour
And Tories, and spit upon the name of Oliver Cromwell
And denounce this royal line that still salute him
And will salute him forever.”
- Morrissey, Irish Blood English Heart.
Nos Jornais de sexta, sábado e até domingo só se falava no casamento real de William, príncipe herdeiro da coroa britânica e Kate, sua – atual – esposa. Pode me chamar de bobo por vir aqui me dar ao trabalho de criticar o evento do ano, quiçá do século, mas o farei de qualquer forma. Principalmente porque eu não acho que a celebração da monarquia, ainda mais desta monarquia em especial, algo válido no mundo em que vivemos, tanto pelo peso histórico quanto pelo peso social que este casamento representa.
Primeiramente, eu gostaria de deixar bem claro que este casamento não é um “conto de fadas moderno” como afetados estilistas ( eles se chamam de fashionistas, né?) e demais grifes e consumidoras ávidas por novidades chic podem dizer, corroborando com psicologias infantis de que precisamos desses contos de fadas em nossa modernidade. Principalmente por vivermos uma modernidade cada vez mais volátil. Discordo disso. Esse casamento não é nada disso. Ele também não é um “charme” inerente à identidade britânica. Ele faz parte sim da identidade – forjada- entre os britânicos, mas, além disso, ela é a representação social de um modelo opressor, de raízes históricas condenáveis e que ainda hoje mascaram o domínio britânico sobre o commonwealth seja no campo político, econômico ou simbólico (o que alguns dizem “não valer de nada”).
E é ai que temos outro problema. As pessoas que acham que a família real britânica não exerce poder algum e que poder simbólico e nada é a mesma coisa. Calma, pera lá. A respeito de jogadas históricas passadas, cartas magnas etc., falar que o poder da monarquia britânica é reduzido graças ao regime parlamentar e o condicionamento da common law, baseada em costumes e preceitos ( muitos deles antiquíssimos e capitulados, bem verdade) não quer dizer em hipótese alguma que o poder da família real britânica é inexistente. E esse casamento, bem como a própria existência de seus membros (vivendo sob a égide e sobre as costas do povo) é de fato um grande pavoneamento e mostra o poder que ele exerce. A lógica medieval de que para você SER alguém tem de ostentar e mostrar que tem, pode parecer caduca nos dias atuais (principalmente porque temos de parecer o que não somos a todo tempo), mas é isso mesmo que uma unidade monárquica em qualquer lugar do planeta é em nosso mundo moderno: caduca.
Caduca, mas não morta. E sabe como ninguém mostrar ao mundo como exercer o seu poder. Indo muito além do lobby ocasionado pelo casamento, temos de entender que cada detalhe da cerimônia de sexta feira, do tapete aos detalhes da farda do príncipe tinha a ideia básica de mostrar ao mundo o poder exercido pelo coroa britânica. Um exemplo disso foi o tal falado uniforme de gala usado pelo príncipe no casório. Para quem não sabe ele usou um uniforme oriundo dos Royal Irish Guards, de onde ele teria sua maior patente. Politicamente aquilo incomoda alguns irlandeses, principalmente por ser um uniforme que mostra diretamente o domínio britânico sobre o problemático território norte irlandês que mesmo depois da independência da Irlanda em 1921 (reconhecido em 1922) ainda se mantêm em domínio britânico. Ah, mas você pode dizer “mas é só uma roupa”, Mas não é bem assim. Além do uniforme, um dos títulos recebidos pelo príncipe William ( escolhidos pela Rainha Elizabeth II, vale ressaltar) foi o de Barão de Carrickfergus. Você sabe onde fica Carrickfergus? Sim, no norte da Irlanda. Mas, além disso, você sabe o que representa a cidade de Carrickfergus para a memória política britânica e no embate entre unionistas britânicos e nacionalistas de identidade celta irlandesa?
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A cidade de Carrickfergus (a rocha de Fergus) é historicamente uma cidade que serviu de domínio britânico na região. [1]Foi durante os séculos XVI e XVII a base de operações da coroa no território irlandês e também o lugar onde William de Orange ( grande nome dos orangistas) desembarcou na Irlanda para efetuar seu domínio protestante sobre a ilha varrendo seus habitantes locais e abrindo espaço para o domínio de colonos igualmente protestantes. Ou seja, um lugar que guarda na memória política o firme braço da dominação política britânica na região. Tudo isso em um simples e inofensivo casamento, não é mesmo? Isso somando a histórica visita da Rainha à República da Irlanda (primeira visita de um monarca britânico a Irlanda desde a sua independência) Pode dizer muito coisa, principalmente que estariam abertos a diálogo, mas nem tanto. Ou até mesmo algo pior.
Mas enfim, o casamento é apenas uma celebração simbólica, charmosa e inofensiva certo? Você tem todo o direito de pensar isso, principalmente porque é isso que grande parte dos lobistas monarquistas britânicos querem que você pense. No entanto, não esqueça que esse casamento representa uma farsa das mais bem trabalhadas da História, talvez a “tradição inventada[2]” (nos moldes de Hobsbawm) melhor efetuada e aceita do mundo ( visto a transmissão para bilhões de pessoas na última sexta). E que esconde em seu viés glamuroso e de consumo midiático a apologia de uma instituição totalmente incompatível com o mundo em que vivemos: a Monarquia. Principalmente a monarquia britânica, último bastião de regimes que a maioria dos povos ao longo da história tratou de depor, degolar, enforcar e guilhotinar tentando pelo sangue limpar a alma do atraso teocrático na política dos homens.
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[1] CONNOLLY, S. J. (org.) The Oxford Companion to Irish History. Oxford University Press, 1998.
[2] Por tradição inventada entende-se como para Hobsbawm como sendo “um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácita ou abertamente aceitas; tais práticas de natureza ritual ou simbólica visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica, automaticamente, uma relação ao passado” em HOBSBAWM, Eric; Ranger, Terence (org.). Invenção das tradições. Rio de janeiro: Paz e Terra, 1984




Cara eu li no seu profile do lado:
“Erick Carvalho é Historiador, Flautista domingueiro, pseudo-irlandês e sonhador ERÓTICO.”
Eu pensei hahahaha, porra o Erick agora tá no erotismo? ele mudou mesmo hahahahahaha.
Cara, gostei do blog, mas ainda não li hahahaha, essa é a clássica das menininhas hahaha.
Grande abraço cara e vê se aparece, tenho saudades das nossas conversas nerds, sobre a Irlanda, Marxismo, Smiths, Cure e afins.
hahahahahahahaha Só você, cara! Temos de marcar urgente de nos falarmos! Pelos velhos tempos! Já tem anos que não nos esbarramos!
Muito bom o texto, expressa os meus sentimentos sobre essa manifestação ridícula de tudo que eu odeio no planeta. Parabéns pelos textos e pelo blog. Abraços