Slavoj Zizek é uma daquelas figuras singulares e de pensamento rápido e complexo. No entanto, o que distingue Zizek dos demais é sua capacidade de transformar temas profundos existentes em Hegel ou Lacan para o discurso do cotidiano com exemplos de fácil acesso presentes no imaginário popular.
E foi este Zizek que eu assisti falar de forma frenética na terça feira dia 24 de maio, em um Odeon lotado de pessoas das mais diferentes formações. Mas todos com um interesse único: escutar o que ele tinha a dizer criticamente sobre temas como ecologia, imaginação e diferenciações ideológicas. O resultado não decepcionou.
Logo de início Zizek tece comentários diretos e críticos a ideologia cínica do discurso ecológico. Afinal, para ele ignorar a realidade de forma cínica em discurso ecológico é não entender que a natureza por si só é desequilibrada e não seria possível controlá-la por moralidades “equilibradas” evocadas em ação do capitalismo. Para Zizek, temos de olhar para a questão ecológica de uma maneira menos condescendente com a ideologia dominante, para não cairmos na falácia da negação cínica provocada pela ideologia vigente. Neste sentido, temos de tomar o exemplo dos austríacos que ao receber um telegrama dos alemães na I Grande Guerra dizendo “A situação é grave, mas não é catastrófica” responderam dizendo “A situação é catastrófica, mas não é grave”. E ponderar sobre isso dentro do cinismo ideológico que mascara os interesses do discurso ecológico.
Além disso, não possível como diz Slavoj Zizek aceitar a “culpa ecológica” que seria o novo ‘fardo do homem branco’ com a intenção de criar um sentimento de culpa pessoal (suspicious self culpabilization) sobre as mazelas econômicas do mundo.
A culpa ecológica produz então um discurso moral de alívio dessa culpa baseando-se em ‘estilo de vida ecológico’ que tende a inutilidade e a servir ao capital por meio de sua lógica valorativa de commodities. Zizek nos alerta que devemos entender que o planeta nunca foi bonzinho e não existe uma Mãe terra bondosa. As mudanças geológicas todas são instáveis e agressivas e não podemos pensar que ações leves e quase passivas possam resolver o problema de aquecimento global, por exemplo. O estilo de vida ecológico, com seus rituais obsessivos e vazios apenas mascara isso e dão ao homem comum a falsa sensação de salvar o planeta, quando na verdade estão apenas alimentando outra forma de capitalismo.
Neste sentido, Zizek entende que a exacerbação cínica desse discurso serve ao capitalismo, pois a ecologia neste sentido não seria uma limitação natural ao avanço capitalista, mas atuaria por meio da ideia de Sustentabilidade em um “natural capitalism’ onde TUDO seria um commodity, o que revelaria uma radicalização capitalista em nível absurdo.
Seria preciso então elaborar um discurso contra hegemônico. Para exemplificar isso, ele busca o argumento do secretário de defesa Donald Rumsfeld sobre “Saber o que se sabe” e “saber que não se sabe”. Para Zizek existe a categoria do “Não saber que se sabe” que mascara a sua própria ideologia em um sentido de ação e manutenção da mesma em nível inconsciente e que não é questionado ou sequer notado. “É preciso procurar o que você não sabe que sabe, o desconhecido conhecido, o que não é dito, mas fica implícito”
Esse não saber o que se sabe é bem mais grave que o saber o que se sabe, saber o que não se sabe ou não saber o que não se sabe, pois o Não saber o que de fato se sabe esconde a ideologia por trás de uma apolitização da própria ideologia vigente.
Entendemos então que fica claro no discurso de Zizek que a radicalização dessa ideia leva a negação como valor positivo e ao apartidarismo e a apolitização que seriam de uma
ignorância sem tamanho, visto que mesmo essas ações carregariam em si valores ideológicos. Logo, a negação atuaria como um mecanismo para se esconder proposições ideológicas.
Esta hipocrisia ideológica, por sua vez, apresenta-se na defesa de ideias sem engajamento, aplicando de forma aberrativa e reificando a hipocrisia do ato em sua manutenção normativa da prática evasiva. (Leaver who presents ideologicaly non ideology)
Exemplo desse comportamento de negação e evasividade se mostra na prática do neo-liberalismo que é pregado pelas grandes nações capitalistas, mas não cumprida pelos grandes expoentes capitalistas em questão, existindo em uma forma de farsa da negação prática de um postulado divulgado, novamente contribuindo para a hipocrisia ideológica aberrativa e que esconde a complexidade da ideologia seguida.
Esse é um reflexo do sistema educacional e estrutural da economia burguesa que nos últimos séculos formou a mentalidade de grupos voltados para a lógica fragmentada e individualizada do saber levada ao extremo e exacerbada na fragmentação de demandas existentes no mundo contemporâneo.
Slavoj Zizek continua e vai mais além ao dizer inclusive que esse não comprometimento chega a níveis tão altos que suas proposições não se solidificam e chegam a lugar algum. O total desprendimento por posturas mais sólidas leva ao absurdo, por exemplo, de uma agência de namoros francesa que segundo Zizek promete achar seu par ideal para amar sem se apaixonar. (Aimer sans tomber amoureux)
Uma das formas dessa evasividade segundo ele é a reação conservadora existente nos dias atuais fora de contexto e buscando uma reinvenção tosca de valores. Exemplos disso seriam, por exemplo, os filmes hollywoodianos atuais como O Discurso do Rei e Cisne Negro onde o primeiro retrataria segundo Zizek que “O rei gagueja e está certo, porque nenhuma pessoa normal pode aceitar ser rei por direito divino. Então a luta é para fazê-lo estúpido o suficiente para aceitar isso.” Já sobre Cisne Negro Zizek dispara que “A moral da história é que um homem pode ter uma profissão e uma vida privada, mas uma mulher não pode se dedicar totalmente à carreira, no caso o balé. Se ela tem um triunfo , tem que morrer. Você pode imaginar uma mensagem mais reacionária?” . Isso sem contar a ausência de Sexo em filmes como último de James Bond e Anjos e demônios, mais uma vez buscando essa onda reacionária fora de contexto por uma reinvenção de valores.
No entanto, ao tecer críticas devemos tomar certos cuidados para não darmos armas a forma hegemônica de pensamento. É neste sentido que Zizek fala sobre a Ideologia e tolerância. Segundo ele, a exacerbação e pânico da intolerância existente em um discurso hegemônico assumido provoca uma perseguição aos ideais multiculturais de tolerância em uma ação não tão tolerante como deveria ser, o que dá ao discurso hegemônico a única arma que ele poderia ter neste embate.
Assim, nós temos de ser criativos em nossas críticas e pensarmos para além das prerrogativas do sistema vigente, mas usando de imaginação.
Seguindo então a ideia de que “imaginamos o fim do mundo, mas não o fim do capitalismo” Zizek chama atenção para o contraste entre Possível X Impossível.
A possibilidade é ferramenta não apenas da imaginação, mas também das diferentes visões em paralaxe que uma problemática pode ter. Desta forma, diz Zizek, mais importante do que definir possíveis soluções é redefinir os problemas de seu lugar de origem, onde permanece sem uma visibilidade plena de sua representação e significado.
Redefinir problemas e não responder os problemas postulados por mentalidades não livres é vital para desmascarar ideologias hipócritas de negação e encontrar a verdadeira matriz do problema em si ao analisá-lo em movimento paralático.
Seguindo esta ideia, condicionar-se e sentir culpa das proposições do sistema é entrar no jogo dos que dominam e manter seu poder da maneira como está.
De certo que Slavoj Zizek é um pensador que não se esgota, pois ele se nutre do cotidiano para alavancar suas bases teóricas. Ao menos para mim, foi deveras proveitoso participar dessa conferência.
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