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É costumeiro dizer que uma das mais célebres frases de Sigmund Freud é que “os irlandeses são imunes a psicanálise”. Ao assistir “Nó na Garganta” (The Bucther Boy no original) do diretor irlandês Neil Jordan, nós podemos até mesmo entender um pouco essa afirmação.

A história contada no filme – muitas vezes comparada como uma mistura de laranja mecânica com uma Amelie Poulain psicótica à irlandesa – nada mais é que um drama sobre um garoto psicótico que estimulado por uma sociedade hostil e paranoica em uma Irlanda dos anos 60 catalisa e potencializa sua doença mental. O Resultado disso na trama é um filme forte e violento que trata de um dos principais temas existentes nas narrativas históricas e leituras sociológicas irlandesas modernas, o trauma.

No entanto, o trauma existente na narrativa social irlandesa e que inclusive se atrela a alguns aspectos de sua formação indentitária não são tratados como se espera. O filme é um soco no estômago, bem verdade, mas sua narrativa é convidativa. Neil Jordan usa de elementos fantásticos para contar a história do garoto Francis Brady. As cores fortes presentes na fotografia tornam a psicose e o mundo de fantasia inventado pela cabeça do menino em algo altamente atrativo para o espectador e, além disso, até mesmo suaviza as cenas brutais do filme que ganham um tom de humor negro quase sempre.

Até porque os surtos do rapaz são estimulados pela própria sociedade em que ele vive. Sua paranoia, seus arroubos de violência e seus traumas pessoais são absurdamente catalisados por suas relações sociais. O Trauma está presente, bem como o próprio abuso infantil que potencializa a fantasia psicótica criada por Francis Brady ao longo do filme que pode ser acompanhada por patologias sociais bem próximas a sociedade irlandesa interiorana da década de 60.

É interessante como nós podemos, por exemplo, ver inúmeros elementos da memória coletiva da comunidade retratada no filme como fatores preponderantes e que alimentam o mundo brutal e fantástico criado na cabeça do garoto. A paranoia comunista da guerra fria é transformada em perseguição individual. As mortes de personagens vitais são vistos como abandono até mesmo para a sociedade que o cerca.

Outro aspecto interessante é a obsessão irlandesa por elementos do passado. Neste filme, o garoto tenta se nortear por lembranças de um passado que distorcidas por sua mente doentia acabam por aguçar sua agressividade e sua fantasia mental psicótica. A revolta entre os momentos de surto e realidade de Brady são diretamente alimentados pela obsessiva característica social irlandesa por buscar elementos do passado, mesmo que um passado mítico, para embasar sua definição do eu, sua identidade.

Neste sentido, “Nó na garganta” é um filme muito interessante para pensarmos os aspectos ligados à memória social e, sobretudo, a articulação entre uma memória coletiva e uma memória individual e como isso pode dentro da subjetividade de uma mente perturbada causar não apenas a inadequação individual a sociedade, mas promover o caminho inverso. A catalisação de distúrbios psíquicos já existentes internamente por meio de patologias sociais apropriadas por uma memória coletiva.

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A Morte existencial do meu alfaiate.

Hoje, meu alfaiate morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi a mensagem direta e seca ao bater a porta do sobrado antigo de uma rua aqui no Méier: “Seu Ivan morreu. Talvez o enterro seja amanhã, não sei. As roupas prontas talvez na quinta.” Isto não quer dizer nada. Roupas e morte não querem dizer nada. Ou talvez queiram dizer tudo. Não sei a ligação.

O sobrado do seu Ivan fica em uma rua perto de minha residência. O conheci quando tinha meus 15 anos, época em que decidi arrumar dinheiro como digitador de escritórios de advocacia. Com o dinheiro comprava livros e ajustava roupas largas demais que ganhava de parentes crédulos em meu crescimento ou simplesmente as que eu mesmo comprava em lojas, onde nunca se encontra seu número quando se é muito pequeno ou muito grande.

Seu Ivan era manso, de rosto sofrido e bem vincado. Seus ajustes  se comportavam de maneira parecida. O colete sempre mais justo que o paletó e as calças eram largas com uma bainha quase morta. Morto agora está seu Ivan, meu alfaiate. Suas mãos residem frias em algum canto da cidade e nunca mais moldarão minhas roupas ou de qualquer outro senhor com o dobro de minha idade que costumava frequentar aquele sobrado de luz fraca e ressoando as ondas lentas e chiadas do radinho de pilha de seu Ivan, sempre mal sintonizado.

Mas agora ele está morto. O senhor ríspido que me deu a notícia não estava com um ar muito satisfeito ao me dizer. A culpa não é minha. Não soube o que dizer. Disse pêsames, mas não sei se era para mim, para ele ou para o morto. Retornei ainda meio entorpecido meu caminho de volta. Regressei e esqueci-me das roupas. No fim das contas, continuava tudo na mesma. E ele ainda morto.

Isso é um pesar.

Slavoj Zizek é uma daquelas figuras singulares e de pensamento rápido e complexo. No entanto, o que distingue Zizek dos demais é sua capacidade de transformar temas profundos existentes em Hegel  ou Lacan para o discurso do cotidiano com exemplos de fácil acesso presentes no imaginário popular.

E foi este Zizek que eu assisti falar de forma frenética  na terça feira dia 24 de maio, em um Odeon lotado de pessoas das mais diferentes formações. Mas todos com um interesse único: escutar o que ele tinha a dizer criticamente sobre temas como ecologia, imaginação e diferenciações ideológicas.  O resultado não decepcionou.

Logo de início Zizek tece comentários diretos e críticos a ideologia cínica do discurso ecológico. Afinal, para ele ignorar a realidade de forma cínica em discurso ecológico é não entender que a natureza por si só é desequilibrada e não seria possível controlá-la por moralidades “equilibradas” evocadas em ação do capitalismo. Para Zizek, temos de olhar para a questão ecológica de uma maneira menos condescendente com a ideologia dominante, para não cairmos na falácia da negação cínica provocada pela ideologia vigente. Neste sentido, temos de tomar o exemplo dos austríacos que ao receber um telegrama dos alemães na I Grande Guerra dizendo “A situação é grave, mas não é catastrófica” responderam dizendo “A situação é catastrófica, mas não é grave”. E ponderar sobre isso dentro do cinismo ideológico que mascara os interesses do discurso ecológico.

Além disso, não possível como diz Slavoj Zizek aceitar a “culpa ecológica” que seria o novo ‘fardo do homem branco’ com a intenção de criar um sentimento de culpa pessoal (suspicious self culpabilization) sobre as mazelas econômicas do mundo.

A culpa ecológica produz então um discurso moral de alívio dessa culpa baseando-se em ‘estilo de vida ecológico’ que tende a inutilidade e a servir ao capital por meio de sua lógica valorativa de commodities. Zizek nos alerta que devemos entender que o planeta nunca foi bonzinho e não existe uma Mãe terra bondosa. As mudanças geológicas todas são instáveis e agressivas e não podemos pensar que ações leves e quase passivas possam resolver o problema de aquecimento global, por exemplo. O estilo de vida ecológico, com seus rituais obsessivos e vazios apenas mascara isso e dão ao homem comum a falsa sensação de salvar o planeta, quando na verdade estão apenas alimentando outra forma de capitalismo.

Neste sentido, Zizek entende que a exacerbação cínica desse discurso serve ao capitalismo, pois a ecologia neste sentido não seria uma limitação natural ao avanço capitalista, mas atuaria por meio da ideia de Sustentabilidade em um  “natural capitalism’ onde TUDO seria um commodity, o que revelaria uma radicalização capitalista em nível absurdo.

Seria preciso então elaborar um discurso contra hegemônico. Para exemplificar isso, ele busca o argumento do secretário de defesa Donald Rumsfeld sobre “Saber o que se sabe” e “saber que não se sabe”. Para Zizek existe a categoria do “Não saber que se sabe” que mascara a sua própria ideologia em um sentido de ação e manutenção da mesma em nível inconsciente e que não é questionado ou sequer notado. “É preciso procurar o que você não sabe que sabe, o desconhecido conhecido, o que não é dito, mas fica implícito”

 

Esse não saber o que se sabe é bem mais grave que o saber o que se sabe, saber o que não se sabe ou não saber o que não se sabe, pois o Não saber o que de fato se sabe esconde a ideologia por trás de uma apolitização da própria ideologia vigente.

Entendemos então que fica claro no discurso de Zizek que a radicalização dessa ideia leva a negação como valor positivo e ao apartidarismo e a apolitização que seriam de uma ignorância sem tamanho, visto que mesmo essas ações carregariam em si valores ideológicos. Logo, a negação atuaria como um mecanismo para se esconder proposições ideológicas.

Esta hipocrisia ideológica, por sua vez, apresenta-se na defesa de ideias sem engajamento, aplicando de forma aberrativa e reificando a hipocrisia do ato em sua manutenção normativa da prática evasiva. (Leaver who presents ideologicaly non ideology)

Exemplo desse comportamento de negação e evasividade se mostra na prática do neo-liberalismo que é pregado pelas grandes nações capitalistas, mas não cumprida pelos grandes expoentes capitalistas em questão, existindo em uma forma de farsa da negação prática de um postulado divulgado, novamente contribuindo para a hipocrisia ideológica aberrativa e que esconde a complexidade da ideologia seguida.

Esse é um reflexo do sistema educacional e estrutural da economia burguesa que nos últimos séculos formou a mentalidade de grupos voltados para a lógica fragmentada e individualizada do saber levada ao extremo e exacerbada na fragmentação de demandas existentes no mundo contemporâneo.

Slavoj Zizek continua e vai mais além ao dizer inclusive que esse não comprometimento chega a níveis tão altos que suas proposições não se solidificam e chegam a lugar algum. O total desprendimento por posturas mais sólidas leva ao absurdo, por exemplo, de uma agência de namoros francesa que segundo Zizek promete achar seu par ideal para amar sem se apaixonar. (Aimer sans tomber amoureux)

Uma das formas dessa evasividade segundo ele é a reação conservadora existente nos dias atuais fora de contexto e buscando uma reinvenção tosca de valores. Exemplos disso seriam, por exemplo, os filmes hollywoodianos atuais como O Discurso do Rei e Cisne Negro onde o primeiro retrataria segundo Zizek que “O rei gagueja e está certo, porque nenhuma pessoa normal pode aceitar ser rei por direito divino. Então a luta é para fazê-lo estúpido o suficiente para aceitar isso.” Já sobre Cisne Negro Zizek dispara que “A moral da história é que um homem pode ter uma profissão e uma vida privada, mas uma mulher não pode se dedicar totalmente à carreira, no caso o balé. Se ela tem um triunfo , tem que morrer. Você pode imaginar uma mensagem mais reacionária?” . Isso sem contar a ausência de Sexo em filmes como último de James Bond e Anjos e demônios, mais uma vez buscando essa onda reacionária fora de contexto por uma reinvenção de valores.

No entanto, ao tecer críticas devemos tomar certos cuidados para não darmos armas a forma hegemônica de pensamento. É neste sentido que Zizek fala sobre a Ideologia e tolerância. Segundo ele, a exacerbação e pânico da intolerância existente em um discurso hegemônico assumido provoca uma perseguição aos ideais multiculturais de tolerância em uma ação não tão tolerante como deveria ser, o que dá ao discurso hegemônico a única arma que ele poderia ter neste embate.

Assim, nós temos de ser criativos em nossas críticas e pensarmos para além das prerrogativas do sistema vigente, mas usando de imaginação.

Seguindo então a ideia de que “imaginamos o fim do mundo, mas não o fim do capitalismo” Zizek chama atenção para o contraste entre Possível X Impossível.

A possibilidade é ferramenta não apenas da imaginação, mas também das diferentes visões em paralaxe que uma problemática pode ter.  Desta forma, diz Zizek, mais importante do que definir possíveis soluções é redefinir os problemas de seu lugar de origem, onde permanece sem uma visibilidade plena de sua representação e significado.

Redefinir problemas e não responder os problemas postulados por mentalidades não livres é vital para desmascarar ideologias hipócritas de negação e encontrar a verdadeira matriz do problema em si ao analisá-lo em movimento paralático.

Seguindo esta ideia, condicionar-se e sentir culpa das proposições do sistema é entrar no jogo dos que dominam e manter seu poder da maneira como está.

De certo que Slavoj Zizek é um pensador que não se esgota, pois ele se nutre do cotidiano para alavancar suas bases teóricas. Ao menos para mim, foi deveras proveitoso participar dessa conferência.

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“We’ll go walking out while others shout of war’s disaster.
Oh, be forgiving, let’s go living in the past.”

- Living in the Past, Jethro Tull.

Quinze de maio de dois mil e onze. Certamente este dia ficará marcado por muitos e muitos anos em minha mente pelo deleite musical apresentado pelo Senhor Ian Anderson em terras cariocas. O Show do eterno frontman do Jethro Tull no Citibank Hall ontem apresentou um espetáculo dos mais memoráveis que presenciei em minha vida. Não apenas por ser um grande fã de Ian e de todas as músicas do Jethro Tull, mas pelo carisma de Ian, seus maneirismos e, sobretudo, sua intimidade com o palco e com a plateia. Sua flauta é mágica e encanta.

Ian Anderson e sua proverbial presença de palco. (Foto de Luana Laurito)

E falando em plateia, não podemos deixar de dizer como os fãs de Jethro Tull são heterogêneos. É igualmente prazeroso e estranho reparar que o público pagante ontem no Citibank Hall variava de adolescentes a coroas na casa dos 60 anos.  Gerações de avós, pais e netos juntos em suas cadeiras esperando o incansável Ian Anderson encantá-los com sua flauta. E coloque incansável nisso! Ian Anderson não parava um segundo sequer! Desde o bombástico e nostálgico início do show com Living in the Past até o grandioso final, Ele não parou um minuto no palco, sempre com suas piadas, danças, saltos e as tradicionais jogadas de perna ao ar enquanto empunhava sua proverbial flauta.

Ian Anderson's flute
Ian Anderson, o encantador de plateias.

Já sinto falta de Ian Anderson, essa é a verdade. Logo após Living in the PastUp to me veio para me empolgar de tal forma que o show já estava quase completo pra mim. Mas não! Ian ainda tinha vários coelhos na cartola, ou uma lebre, bem verdade, como na bela canção Hare in the Wine Cup. No entanto, o que levantou mesmo a plateia arrancando aplausos de pé foram as incríveis versões de Bourée e Thick as a Brick que vieram logo em seguida. E quando tudo parecia estar fora do controle dos meros mortais, Ian Anderson atacou mais uma vez com Songs from the woodBudapest, uma das músicas mais hipnotizantes já criadas pelo Sr Anderson. Nada poderia ser melhor, exceto a incrível versão de My God e Aqualung que esse ano completa 40 anos de seu lançamento, idade muito mais avançada que a maioria dos fãs ali presentes  (eu incluso), fato notado por Ian com grande senso de humor, devo dizer.

O encerramento ficou por trás do bis com uma versão avassaladora de Locomotive Breath que não apenas empolgou os fãs como os motivou a deixarem as amarras das cadeiras e se dirigirem a borda do palco para sentirem as emanações de Ian Anderson bem de perto e por uma última vez.

Um verdadeiro flautista mágico.

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Ian Anderson ao fim de bouree

Ian Anderson ao fim de bouree (Foto de Luana Laurito)

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EDITADO:

Setlist:

1.Living In The Past
2.A New Day Yesterday
3.Up To Me
4.Hare In The Wine Cup
5.Songs From The Wood
6.Bach’s Prelude In C Major
7.Bourée
8.Thick As A Brick
9.Toccata And Fugue In D Minor (Bach)
10.A Change Of  Horses
11.My God
12.Budapest
13.Aqualung
Bis
14.Locomotive Breath

    I’ve been dreaming of a time when
The English are sick to death of Labour
And Tories, and spit upon the name of Oliver Cromwell
And denounce this royal line that still salute him
And will salute him forever
.”

- Morrissey, Irish Blood English Heart.

Nos Jornais de sexta, sábado e até domingo só se falava no casamento real de William, príncipe herdeiro da coroa britânica e Kate, sua – atual – esposa. Pode me chamar de bobo por vir aqui me dar ao trabalho de criticar o evento do ano, quiçá do século, mas o farei de qualquer forma. Principalmente porque eu não acho que a celebração da monarquia, ainda mais desta monarquia em especial, algo válido no mundo em que vivemos, tanto pelo peso histórico quanto pelo peso social que este casamento representa.

Primeiramente, eu gostaria de deixar bem claro  que este casamento não é um “conto de fadas moderno” como afetados estilistas ( eles se chamam de fashionistas, né?) e demais grifes e consumidoras ávidas por novidades chic podem dizer, corroborando com psicologias infantis de que precisamos desses contos de fadas em nossa modernidade. Principalmente por vivermos uma modernidade cada vez mais volátil. Discordo disso. Esse casamento não é nada disso. Ele também não é um “charme” inerente à identidade britânica. Ele faz parte sim da identidade – forjada- entre os britânicos, mas, além disso, ela é a representação social de um modelo opressor, de raízes históricas condenáveis e que ainda hoje mascaram o domínio britânico sobre o commonwealth seja no campo político, econômico ou simbólico (o que alguns dizem “não valer de nada”).

E é ai que temos outro problema. As pessoas que acham que a família real britânica não exerce poder algum e que poder simbólico e nada é a mesma coisa. Calma, pera lá. A respeito de jogadas históricas passadas, cartas magnas etc., falar que o poder da monarquia britânica é reduzido graças ao regime parlamentar e o condicionamento da common law, baseada em costumes e preceitos ( muitos deles antiquíssimos e capitulados, bem verdade) não quer dizer em hipótese alguma que o poder da família real britânica é inexistente. E esse casamento, bem como a própria existência de seus membros (vivendo sob a égide e sobre as costas do povo) é de fato um grande pavoneamento e mostra o poder que ele exerce. A lógica medieval de que para você SER alguém tem de ostentar e mostrar que tem, pode parecer caduca nos dias atuais (principalmente porque temos de parecer o que não somos a todo tempo), mas é isso mesmo que uma unidade monárquica em qualquer lugar do planeta é em nosso mundo moderno: caduca.

Caduca, mas não morta. E sabe como ninguém mostrar ao mundo como exercer o seu poder. Indo muito além do lobby ocasionado pelo casamento, temos de entender que cada detalhe da cerimônia de sexta feira, do tapete aos detalhes da farda do príncipe tinha a ideia básica de mostrar ao mundo o poder exercido pelo coroa britânica. Um exemplo disso foi o tal falado uniforme de gala usado pelo príncipe no casório. Para quem não sabe ele usou um uniforme oriundo dos Royal Irish Guards, de onde ele teria sua maior patente. Politicamente aquilo incomoda alguns irlandeses, principalmente por ser um uniforme que mostra diretamente o domínio britânico sobre o problemático território norte irlandês que mesmo depois da independência da Irlanda em 1921 (reconhecido em 1922) ainda se mantêm em domínio britânico. Ah, mas você pode dizer “mas é só uma roupa”,  Mas não é bem assim. Além do uniforme, um dos títulos recebidos pelo príncipe William ( escolhidos pela Rainha Elizabeth II, vale ressaltar) foi o de Barão de Carrickfergus. Você sabe onde fica Carrickfergus? Sim, no norte da Irlanda. Mas, além disso, você sabe o que representa a cidade de Carrickfergus para a memória política britânica e no embate entre unionistas britânicos e nacionalistas de identidade celta irlandesa?

Cidade de Carrickfergus

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A cidade de Carrickfergus  (a rocha de Fergus) é historicamente uma cidade que serviu de domínio britânico na região. [1]Foi durante os séculos XVI e XVII a base de operações da coroa no território irlandês e também o lugar onde William de Orange ( grande nome dos orangistas) desembarcou na Irlanda para efetuar seu domínio protestante sobre a ilha varrendo seus habitantes locais e abrindo espaço para o domínio de colonos igualmente protestantes. Ou seja, um lugar que guarda na memória política o firme braço da dominação política britânica na região. Tudo isso em um simples e inofensivo casamento, não é mesmo? Isso somando a histórica visita da Rainha à República da Irlanda (primeira visita de um monarca britânico a Irlanda desde a sua independência) Pode dizer muito coisa, principalmente que estariam abertos a diálogo, mas nem tanto. Ou até mesmo algo pior.

William de Orange (1650-1702)

Mas enfim, o casamento é apenas uma celebração simbólica, charmosa e inofensiva certo? Você tem todo o direito de pensar isso, principalmente porque é isso que grande parte dos lobistas monarquistas britânicos querem que você pense. No entanto, não esqueça que esse casamento representa uma farsa das mais bem trabalhadas da História, talvez a “tradição inventada[2]” (nos moldes de Hobsbawm) melhor efetuada e aceita do mundo ( visto a transmissão para bilhões de pessoas na última sexta). E que esconde em seu viés glamuroso e de consumo midiático a apologia de uma instituição totalmente incompatível com o mundo em que vivemos: a Monarquia. Principalmente a monarquia britânica, último bastião de regimes que a maioria dos povos ao longo da história tratou de depor, degolar, enforcar e guilhotinar tentando pelo sangue limpar a alma do atraso teocrático na política dos homens.

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[1] CONNOLLY, S. J. (org.) The Oxford Companion to Irish History. Oxford University Press, 1998.

[2] Por tradição inventada entende-se  como para Hobsbawm como sendo “um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácita ou abertamente aceitas; tais práticas de natureza ritual ou simbólica visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica, automaticamente, uma relação ao passado” em HOBSBAWM, Eric; Ranger, Terence (org.). Invenção das tradições. Rio de janeiro: Paz e Terra, 1984

Me OBAMA que eu gosto.

Tem alguns anos eu escrevi esse texto de humor ferino e irracional para o jornal do C.A. de História da UFF. Na época, fazer troça com a figura do Obama era algo natural para mim e algo necessário haja visto as manchetes da época que não tratavam de forma crítica o acontecido e descreviam Obama de forma quase sagrada. E pelo visto depois deste pavoneante encontro Obamesco com a cidade do Rio de Janeiro eu apenas confirmo as palavras que escrevi quando ainda graduando.

E digo mais, é de uma papagaiada terrível esta ” lambeção de bota” que a mídia brasileira faz com a figura do Obama. O Presidente dos Estados Unidos deixa de ser tratado como um importante chefe de estado para subitamente ser tratado como Um rockstar, um Papa e um quase  Messias. Bastava uma capa e ele poderia voar também. Desnecessário.

Não consigo entender como jornais ecoam a incrível notícia de Obama pelas ruas cariocas como se ele estivesse aqui para nos levar ao paraíso. Li de pessoas pobres da cidade de Deus que o reconheciam como “nosso presidente” e nem tinham idéia de quem era a atual presidente do Brasil! Isso sem contar os elogios rasgados do Jornal O Globo a política externa de Obama na Líbia com o manchete “Aula de Democracia” estampando sua primeira página do Jornal hoje. De envergonhar qualquer um.

Acredito que o único jornal que noticiou hoje em sua primeira página acerca dos manifestantes presos  e encarcerados por protestar ( inclusive uma senhora de 70 anos e um menor de idade)  foi o O Povo do Rio que não tem a mesma expressividade no certame editorial carioca de um Globo, Extra, O Dia ou quem sabe do Expresso e do Meia Hora, todos eles enaltecendo a sua maneira um presidente estrangeiro que é apenas um chefe de Estado e que deveria ser tratado com todo o respeito sim, mas nada além disso. Ele não é o Super-Homem, Ele não é Jesus Cristo. Barack Obama não veio salvar você. Acredite.

 

Enfim, o texto de humor vem logo abaixo….

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OBAMA QUE EU GOSTO

Novembro de 2008.

Todos os dias eu vejo capas de revistas, fotos em jornais e na internet mostrando a histérica e histórica ascensão de Barack-O-bamba, que resolveu ser eleito para resolver as coisas lá nos Estados Unidos, pois como todos já sabem, andam pretas.

Não entendo de fato, como isso aconteceu. Um país tão conservador e racista elegeu um negro? Os tempos são outros. Barack Obina foi eleito por algum mot ivo que desconheço. Talvez seja a onda negra que fez Hamilton ganhar na formula 1 ou, quem sabe, eles apenas querem colocar a culpa no negão caso as coisas fiquem mais pretas do que já estão na política americana.

 

Eu realmente espero que agora que foi eleito, Barack Ossanha possa realmente mudar a forma como os americanos olham suas minorias, ou quem sabe parar com certos retardamentos mentais que fazem elas se perpetuarem em uma sociedade assumidamente preconceituosa. Não quero de fato que eles deixem de chamar a casa Branca para chamá-la de casa Afro-descendente, nem nada parecido. Quero apenas um bom senso dos norte-americanos.

 

Quer dizer, nem sei se eles tem algum senso, bom ou mal. E por isso mesmo eu desejo boa sorte ao Barack Osama e que esse “Oba-Oba”(com trocadilho, por favor) da política norte americana resulte em algo. Espero de todo coração que ele sobreviva a opinião publica e mude alguma coisa. Para ser sincero, vendo a tradição americana de dia de ação de graças, futebol americano e tiro ao presidente, espero apenas que ele consiga ser empossado sem levar um tiro na cabeça ou ser assassinado quando for ao teatro.

E eu vejo essa transformação com bons olhos, apesar de ser um democrata a moda dos Estados Unidos. De qualquer forma, não vejo essa eleição norte-americana como um tiro no escuro. Tem algo a mais ai. Vamos ver o que Obama pode fazer em uma era pós-Blush, digo, Bush.

 

Bem, só podemos constatar ao fim disso tudo que as coisas relativas a política e economia no país do hambúrguer e do homem-aranha não estão lá muito claras.

Graças ao Obama. Vamos ficar atentos.

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P.S. Não é um texto de fato ofensivo. Na verdade os trocadilhos todos servem apenas para lembrar que a sociedade estadunidense ( e a nossa também) é ainda repleta de preconceitos, racismos e acima de tudo hipocrisia.

 

“Não foram quinze segundos,/ mas a vida inteira de fama/
Que não amenizaram, porém,/ seu imenso drama
Não sabia se existia, ou se era mera criação/
De uma mídia arrependida que clamava por seu perdão”

- Móveis Coloniais de Acajú, EU.NASCI.COM.FAMA.

 

O Filme  O Show de Truman: O Show da Vida de Peter Weir, pode nos deixar com a pulga atrás da orelha em diversos aspectos. Eu sei que o filme é bem antigo e figurinha comum em críticas das mais diversas, mas eu gostaria de dizer o que esse filme me fez perceber sociologicamente dentro do que entendo por construção de realidade que é basicamente o que o filme aborda alegoricamente.

Toda a realidade é construída pela percepção e reconhecimento de algo concreto. Acredito que este seja o pensamento básico que perpassou minha mente ao me deparar com a construção de realidade televisiva presente no filme “ O Show de Truman”, onde o personagem principal é desde a mais tenra infância socializado dentro de uma realidade forjada televisivamente seguindo a lógica mercadológica das transmissões mais modernas.  A questão que se forma é até que ponto aquele cenário de papelão, com câmeras e holofotes voltados para Truman pode ser legitimado enquanto realidade. Afinal, o personagem de Jim Carrey na trama percebia o seu cotidiano como real e o entendia como algo concreto dentro de sua própria noção subjetiva.

E é ai que o filme o “Show de Truman” se sustenta.  A questão perceptiva é seu ponto de apoio e articulação. O que é real e o que é artificial em nossa sociedade? Até que ponto nossas interações e vivências são sólidas ou tão líquidas a ponto de não conseguirmos sequer mantê-las ou tê-las como relevantes? Como distinguir as percepções de Truman no filme? Como a lógica subjetiva de exacerbado egoísmo e peso social no agente valorizam o empírico de tal forma a ponto de não questionarmos as artificialidades do mundo contemporâneo a nossa volta?

 

Realidade e a construção cenográfica.


O escritor irlandês Oscar Wilde certa vez escreveu que “a vida é um grande palco, mas os papéis foram escolhidos grosseiramente”.  Em verdade, temos de concordar que a realidade é construída individualmente pelas percepções que temos da coletividade. Esse processo de alteridade que nos define enquanto definimos a existência do Outro cria a necessidade dentro da interação social de interpretarmos papéis. Entender a forma como relacionamos o peso social desse papel de agente social pode ser a chave para entendermos a forma como construímos a realidade de maneira subjetiva e valorizando o que temos de empírico na grande maioria das vezes sem percebermos. É nesse sentido que se apresentam ideias fabulosas sobre o assunto como a de Niggel Rapport e Joanna Overing [1] ao dizer que a base desse entendimento encontra-se na noção weberiana de ação e na objetivação do Outro dentro da lógica de alteridade, bem como a idéia de habitus presente em Bourdieu[2].

Neste sentido, a ação social condicionaria por sua prática algumas noções culturais que acabariam por definir a percepção e o comportamento individual dentro da sociedade, o que influenciaria não apenas a sua visão e percepção do coletivo como também a sua própria percepção pessoal do seu eu (self) em uma objetivação social do corpo (indivíduo) dentro do âmbito social, como na já trabalhada noção de corporeidade de Thomas Csordas.

E é interessante pensarmos como no filme essa percepção individual da coletividade é expressa de maneira subjetiva por meio de uma ação social de moldes weberianos que a regula e legitima certas práticas que tendem por meio de um habitus legitimar-se enquanto se legitima promovendo a distinção necessária para a manutenção da ordem cultural e social vigente, mesmo que forjadas cenograficamente pelo programa.

Quando as práticas do programa passam a ser questionadas por Truman elas tendem a ruir, pois nas interações apresentadas apenas um dos atores sociais acredita de fato que ela é real. Todos os demais atores que participam do programa de Truman não acreditam por serem obviamente atores contratados e que não sendo comprometidos com aquela realidade construída não vivem sob aquelas regras a ponto de legitimá-las em suas ações.

Essa construção de realidade quando compartilhada pelos demais indivíduos passa por aquilo que Sartre definiria como a percepção que você tem de si condicionada pelo o que o Outro pensa de você, bem como das demais noções objetivas da existência de uma realidade pré-existente onde a estrutura influenciaria o sujeito em sua essência, mas nunca em sua atuação corporeificada, pois o seu eu (self) estaria presente na sociedade em existência que precederia a chamada essência. Até mesmo porque, como nos lembra Erving Goffman[3], a nossa própria Biografia depende não apenas da interação com os outros, mas da própria percepção que os outros tem de nossos papéis sociais personificados no que ele chama de identidade social, ou seja, o que os outros acham e pensam de você influenciando totalmente na escrita da sua biografia.

Apoiado então na concepção weberiana [4]de um modelo de sociedade que se exprime na manutenção da ação social orientada justamente por uma ordem legítima  de reprovação ou coação, os papéis de agenciamento social são distribuídos aleatoriamente por meio dos agentes que exercem essa regulação das práticas sociais e da manutenção de elemento distintivos sem mesmo perceber, o que caracterizaria o habitus e nos ajuda a compreender como a realidade pode ser entendida dentro da percepção subjetiva do individuo por meio da aceitação de sua identidade social e da identificação com a escrita de sua biografia e do papel social que este ocupa na sociedade, mesmo que no caso de Truman seja um papel forjado para fins mercadológicos, televisivos e legitimado apenas por sua crença e percepção de realidade não partilhada com os demais indivíduos que o cercam.


[1] RAPPORT, Nigel & OVERING, Joanna. Social and Cultural Anthropology: The Key Concepts, Londres, Routledge; 2000

[2] BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil; 2007

[3] GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: LTC, 2008.

[4] WEBER, MAX. Economia e Sociedade: Fundamentos da Sociologia Compreensiva – Vol 1. Editora da UNB; 2004

Aquilo que nós mesmos escolhemos é muito pouco: a vida e as circunstâncias fazem quase tudo”

- J.R.R. Tolkien

 

O ano era 1999. Era dezembro e eu tinha acabado de completar 13 anos. Naquela época mágica eu descobri as coisas que seriam basilares para a minha definição identitária atual.

Afinal, desde os 12 anos eu já consumia avidamente literatura, mitologia e arte celta. Óbvio que com olhares de garoto curioso e nunca esperando que dez anos depois eu faria da celtologia minha profissão. Foi neste contexto de descobertas, entretanto, que eu descobri a beleza literária de Tolkien.

Foi em um jogo de RPG em 99 – Hobby comum para um garoto naquela época – que eu vi as primeiras referências a hobbits, Condado, Gondor e Sauron. E aquilo era fascinante. Não tive dúvidas e comprei na livraria os livros de O Senhor dos anéis. As capas eram atrativas, uma azul, outra vermelha e a última verde. Li aqueles livros avidamente e quando estava lá pelo segundo livro descobri que aquela história fantástica se tornaria um filme.

Como todo adolescente empolgado, eu embarquei e cresci com aqueles filmes que ilustravam tão apaixonadamente minhas leituras que naquele momento eram de vital relevância na minha formação. Creio que busquei nas palavras de Gandalf a figura do estudioso que se importa mais em aquecer o coração dos homens que simplesmente juntar poder e ostentá-lo (como Saruman), no comportamento de Sam, o cuidado fraternal por aqueles amigos que fazia na adolescência e no caminho de Frodo até Mordor, o caminho que todo garoto faz na adolescência até tornar-se um homem, com as benesses, provações e fardos que o mundo moderno pode nos dar.

Eu agradeço a Tolkien por sua mitologia. Agradeço a Peter Jackson pelos filmes e tudo o mais. Afinal, eles foram parte importante da minha adolescência e criaram parte da poética e filosofia de vida pessoal que mantenho até hoje em meus estudos, no trabalho e na vida pessoal.

E é com esse sentimento que fiquei muito feliz ao saber  do Ator Ian McKellen (que interpreta Gandalf na trilogia do cinema) que em Fevereiro a Terra Média volta a ganhar vida comas gravações de “O Hobbit”( http://www.mckellen.com/cinema/hobbit-movie/index.htm).

E que outros garotos possam se encantar com Tolkien e sua riqueza literária.

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Um Mico Hobbit
Eu, adolescente, pagando um dos inúmeros micos nerds da minha vida na empolgação de “O Senhor dos Anéis”.

“Do not pity the dead, Harry, pity the living.Above all, pity those who live without love. By returning you may ensure that fewer souls are maimed and fewer families are torn apart. If that seems to you a worthy goal, then we say goodbye for the present.”

- Harry Potter and the Deathly Hallows.

 

 

Na última quinta feira dia 18 de Novembro, em um cinema carioca lotado de fãs vestidos com trajes bruxos e empunhando varinhas eu assisti ao primeiro filme da última parte da saga Harry Potter.  Harry Potter e as Relíquias da Morte – parte 1 é, ao menos sob minha ótica, um filme que trata não apenas das desventuras do conhecido bruxo da literatura fantástica contra idéias totalitárias e quase nazistas representadas no vilão Voldemort ou que fala de amizade e companheirismo em tempos difíceis. Para alguém que leu os primeiros livros tem praticamente dez anos e que se lembra das primeiras, e infantis, histórias com a nostalgia de quem se lembra do fim da própria infância, Harry Potter e as Relíquias da Morte trata do fim da adolescência e o início da vida adulta, com todos os problemas, angústias e sentimentos de dúvida, desamparo e se o trocadilho mágico mo permitir,  desencanto.

Lembro-me bem da sensação de ao terminar de ler Harry Potter e a Pedra filosofal quando ainda cursava a sétima série da educação básica. No mesmo semestre ainda cheguei a ler os outros dois livros seguintes de maneira ávida. A lógica de aumentar gradativamente a seriedade da narrativa (bem como o número de páginas) é esplêndido se pensarmos como isso treina e condiciona os leitores mais jovens a não temer a literatura. Na época eu já era um nerd viciado nos livros de Tolkien o que tornou a leitura de Harry Potter bem mais célere. Entrar nesses mundos fantásticos é algo que todo garoto deveria experimentar. Faz com que qualquer um tenha esperança por dias melhores.

No entanto, ninguém pode viver pra sempre em um mundo mágico. Nem mesmo Harry Potter. E assim a narrativa vai se tornando mais pesada, sombria e repleta de mortes  e outras temáticas taciturnas. Em outras palavras, ela amadurece. Do deslumbramento ao desencanto em 10 anos de livros e filmes. Esse é o tempo de Potter. Esse é o caminho do início ao fim da adolescência.

Afinal, como diria o diálogo inicial do filme “Vivemos em tempos sombrios”. E que tempos sombrios são esses? Nada mais duro que a vida cotidiana. Todo coração se agita quando a adolescência acaba.  Harry Potter enfrenta a maturidade de suas histórias, seja nos livros ou na vida daqueles que os leram pela primeira vez dez anos atrás quando ainda eram crianças. Muitos cresceram com Harry Potter e enfrentaram o desencanto que a vida cotidiana pode trazer. A incerteza que o início da vida adulta mostra e as dificuldades de se inserir como geração ativa. A magia acabou. O mundo com seus interesses mesquinhos, desconfianças está logo a frente. Cabe a você crescer e decidir que atitude tomar. Só assim você poderá mudá-lo, a mágica não é mais suficiente.

O filme deixa isso bem claro em sua fotografia, e na morte de personagens conhecidos como a coruja Edwiges e o elfo doméstico Dobby. Nada mais emblemático para representar a morte do lado infantil de Potter. O filme é um Road Movie sombrio que é – da mesma forma que o livro – totalmente diferente dos outros filmes de Harry Potter. Quem for esperando mais um filme água com açúcar de crianças tomará um susto. Jã os fãs que acompanharam os livros e cresceram junto com Harry nestes últimos dez anos verão o fim de uma parte importante de suas vidas ali.

Finite Incantatem.

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“Não vem com isso não
Tô chegando é de ladrão
Porque quando eu pego
Eu levo pela mão
Não mando recado
Eu vou na contramão…

(…)

Tropa de Elite
Osso duro de roer
Pega um pega geral
Também vai pegar você…”

Tihuana – Tropa de Elite.

 

Capitão Nascimento está de volta. Eleito por milhões de brasileiros em 2007 como o protótipo do herói nacional, Ele e Tropa de Elite 2 chegam ao cinema com um estrondoso sucesso de bilheteria em sua estréia, fruto da apreensão nutrida por todos aqueles que acompanham filmes nacionais ou simplesmente esperavam ver Nascimento, o Rambo brasileiro, trocar uns sopapos com uns marginais e mandar seus calouros do Bope “pedirem pra sair”.

http://img.photobucket.com/albums/v291/VanPato/Inutilidades/01tropa24082010.jpgA verdade é que tropa de Elite 2 é um filme mais maduro que o primeiro, consagrado pelo seu discurso unilateral e claramente agressivo que enaltecia a truculência do Bope e suas práticas desumanas. A polêmica do debate do primeiro filme era justamente a legitimidade que a defesa de ações militarizadas e da máquina de guerra urbana trazia não apenas para a política de segurança no Estado do Rio de Janeiro, mas também para as classes médias que a defendiam.

E este é o ponto que o Tropa 2 tenta modificar. E devo dizer que é um trabalho hercúleo. Afinal, Capitão Nascimento é um ‘herói nacional’ consagrado e sua figura carismática leva o discurso  de contorno fascista das operações do Bope a uma legitimidade incrível junto da classe média que obviamente nunca entrou em uma favela na vida e nunca viram um caveirão fora das telas de cinema.

Zé Padilha introduz novas realidades ao filme  que o torna bem mais interessante para debatermos não apenas as políticas de segurança pública, mas as diversas vozes presentes no embate agonistico de forças que muitas vezes contrárias buscam uma finalidade muito próxima o que mostra  que até mesmo o Capitão Nascimento pode estar errado em seu discurso, mesmo sendo o narrador da história. Claro que o filme cai em simplismos de culpar o sistema e é nesse ponto que o personagem de Wagner Moura cresce e expõe toda a pseudo-razão que o discurso da truculência pode nos dar em seu já conhecido axioma desumano legitimado no primeiro filme.

É interessante notarmos que o filme é amarrado de tal forma a colocar  que mesmo o discurso de uma esquerda humanista apoiada no ativista e deputado Fraga (reconhecidamente inspirado no Deputado Marcelo Freixo do PSOL) por mais coerente que seja em seu embate contra as milícias é frente a fala de Nascimento  visto como falho por uma espécie de falta de seriedade crônica de seus defensores. Mas lembremos sempre que o filme ainda é narrado pela ótica do capitão Nascimento e sob esta visão,  Nascimento mesmo errado está certo e por estar tão certo cabe a ele jogar na cara da sociedade brasileira que o problema das milícias é culpa de todos nós.

Só que calma aí! Não é um ‘todos nós’ buscando um fato social que responda pelos problemas de violência no Rio de Janeiro ou ainda a busca de um modelo de “tipo ideal’ weberiano para culpabilizar o comportamento miliciano e dos que permitem sua atuação. Não é nada disso, não se enganem. O que o filme propõe em suas cenas finais é o famoso “tirar o corpo fora” da situação quando ela explode, buscando assim uma resposta utópica, tão útil como a de adolescentes que pixam um “Anarquia” em seus tênis para mudar o mundo. É quase que uma volta ao primeiro filme que culpava a classe média de financiar as drogas e de criar a truculência do Bope como cura. Agora ele culpa pela eleição de políticos corruptos que corrompem o sistema a ponto de mesmo a cura tornar-se algo sujo a ponto de virar palco de aproveitadores, incompetentes e de uma esquerda humanista fraca e passional.

No final das contas, Tropa de elite 2 tenta a todo custo continuar não o enredo do primeiro filme diretamente, mas o debate que o primeiro filme suscitou em nossa sociedade. Tem como ponto positivo obviamente a tentativa de mostrar outros discursos e perspectivas além da já conhecida no primeiro filme e como negativo a imobilidade de se levar esse debate a frente tendo a figura convicta de um Nascimento que mesmo sem evocar um bordão sequer mostra que a truculência é necessária para que qualquer política humanista possa ganhar terreno futuramente. Uma contradição que não agrada nem um lado e nem outro e que torna o filme com posicionamento tão ambíguo em certos momentos que até acreditamos que  o personagem de Wagner Moura se posiciona junto a um idealismo coerente. Mas não se enganem, Capitão Nascimento e seu axioma desumano ainda estão lá!

http://img.photobucket.com/albums/v291/VanPato/Inutilidades/5F4118E66523EF1A6E8FDF6A16C76A.jpg

 

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